"Memórias de um mariscador"...
Idos de 1955
Partindo para caçada de jacaré e onça no interior da Ilha do Bananal.
Extraido do livro: Historias , contos e lendas do sertão do mesmo autor.
Era o mês de maio, naquela manhã de sol em que o leve vento de verão açoitava o meu rosto eu estava atravessando o rio Araguaia em uma pequena canoa, saíra de Mato Verde, na divisa de Mato Grosso, buscando uma pequena enseada no porto no outro lado do rio na ilha do Bananal, onde havia deixado um animal, melhor dizendo uma burra que ali ficara a minha espera para seguir viagem onde meu companheiro Mariano Paciente e Rafael me esperavam ás margens do Lago do Mamão, no interior da ilha, eu deveria levar suprimentos para nossa estadia de caçadas, e isto eu ia levando.
Durante a travessia fiquei a pensar como aquilo tudo começara...
Aquela casinha junto ao porto da cidade de Mato Verde morava a então minha sogra, hoje falecida, Joaninha Paciente da Silva. O café que tomávamos com bolo "mane pelado" vinha a calhar enquanto eu conversava com seu filho e meu cunhado Mariano Paciente as idéias iam surgindo...
--Nos devíamos ir caçar jacaré, em vez de só pensar em matar onça - sugeriu Mariano.
--É uma boa idéia –concordei – mas de entremeio matamos algumas também.
--É, isto vai acontecer, mas precisamos decidir aonde e quando e ainda prepararmos a viagem.
--Vamos para a Ilha do Bananal – interrompi – estive sabendo pelo Manoel Basílio, aquele que é vaqueiro do Manoel Firmino, que no lago do Mamão está cheio de jacareassú, só dos grandes.
--Já falei com ele para nos levar até lá e deixar uma junta de bois conosco ou pelo menos levar a canoa e a nossa tralha - interveio meu companheiro.
--Nossa tralha e mais o sal.
--Precisamos levar três arpões, dez cargas de pilhas, duas lanternas de dois elementos, foquitos (lâmpadas das lanternas) três sacos de sal de 30 quilos, 15 quilos de farinha de puba, dois quilos de açúcar, um quilo de café, as redes de dormir, mosquiteiros, corda de arpão, facas e pedra de amolar e uma lima, uns comprimidos de quinino e melhoral.
--Não podemos esquecer de levar umas cinco latas vazias de vinte litros para guardarmos o óleo da gordura do jacaré, do toicinho de porco salgado, e duas lamparinas, dois litros de querosene e umas rapaduras.
--É uma boa mistura, querosene, sal, farinha e rapadura e tudo isto deve ir dentro da canoa que vai de arrasto no pescoço dos bois até na beira do rio Jaburu e nos vamos a pé, eu, você Dankmar e o Rafael "garrafa seca".
Naquele mesmo dia fizemos as todas compras e embalamos tudo em sacos, e como cobertura, em uma capa feita de leite de "mangaba".
Conversamos com o Manoel Basílio que se comprometera de no outro dia cedo estar com a junta de bois no porto do lado da ilha bem em frente a Mato Verde esperando-nos.
Quando o dia marcado chegou, madrugamos com a canoa carregada e um companheiro nos ajudou a atravessar o rio, mal clareara o dia já estávamos no curral bebendo leite do gado do Lucio.
Manoel Firmino que era o dono da fazenda Jaburu nos emprestara pelo seu empregado Manoel Basílio uma junta de bois novos e mansos e em seguida amarramos a canoa na canga dos dois bois, colocamos tudo dentro e lá se fomos nos quatro, Mariano, Dankmar, Rafael e o. Manoel Basílio que ia montado, pois teria que voltar rumo ao meio da grande ilha para campear gados alongados.
Saímos da mata da beira rio e entramos em campo aberto e como o capim era alto tivemos que seguir as trilhas do gado e das antas, o sol começava a esquentar quando avistamos ao longe a mata do lago dos Cavalos, seria a primeira etapa de descanso. A canoa arrastada deixava uma trilha inconfundível, pois estava pesada, mas como era destas feita de um só tronco do cerne de Landi, o fundo era grosso e não sofria nada arrastada sob o capim. Procuramos a sombra de um enorme Jatobá, bem na orla do capão e aliviamos a canga soltando os bois atrelados para pastarem não sem antes lhe oferecermos água na lagoa.
Eu havia me casado já fazia dois anos e já tinha um filho de nome Aleixo, como o nome de meu sogro, o pai de Mariano, minha esposa Maria ficara em Mato Verde, e eu vindo de São Paulo para Mato Grosso com a Bandeira Piratininga em junho de 1948, ainda tinha no sangue o espírito de 'Bandeirante e aventureiro", assimilava tudo muito rapidamente, parecia que havia nascido naquele sertão bravio, mas a curiosidade sempre foi minha companheira, à vontade de aprender, interpretar e registrar, me impulsionavam violentamente navegando no espaço e gravando na memória tudo ao meu derredor.
Neste almoço só comi um pedaço de rapadura com farinha e carne seca que já a trouxemos assada, era a nossa matula.
Seguimos viagem até o pôr do sol e a nossa segunda parada foi á margem do Riozinho, na fazenda do Oleriano, um sertanejo bom, da família do Mundico Sabino. Já havíamos atravessado os ribeirões 23 e 24. No outro dia chegaríamos cedo no nosso destino o Lago do Mamão.
Foi uma das noites bem dormida e com uma comida caseira quente, fomos muito bem recebido pelo morador e sua família.
No dia seguinte antes de clarear já estávamos arrumando para partir margeando rio acima até o lago, fomos encontrando as mais diversas situações possíveis começando pelas centenas de patos selvagens banhando nas águas limpas do pequeno rio que margeávamos, peixes riscavam a superfície como a festejar a liberdade, encontramos dezenas de capivaras que ao nos verem adentravam no rio bem devagar para não suscitarem a sanha devoradora das piranhas, veados campeiros corriam um pedaço depois paravam admirados a nos olhar, logo desviamos um pouco da rota e entravamos nas imediações do lago e o vaqueiro Manoel nos levou uma clareira bem a beira de onde podia se ver a imensidão das selvagens águas infestadas de jacarés. Contei quinze enormes cabeças, até a altura dos olhos, fora da água a nos espreitar. Já era meio dia. Começamos a nos instalar, peamos os bois atrelados, armamos as redes com os mosquiteiros, empurramos a canoa para dentro do lago e fomos preparar as arpoeiras.
--Mariano – perguntei – eu vou tirar as varas para as arpoeiras enquanto você junta uma lenha e faz um café. Certo.
--Tudo bem, mas cuidado não se afaste muito – recomendou.
--Não foi fácil arranjar umas varas com um mínimo de três metros de comprimento, bem firmes e retas e de bom peso para arremesso. Depois de descascadas escolhi duas delas e as levei ao fogo para "assar" (um método que torna a madeira mais rígida e inquebrantável). Escolhi dois arpões cujos cônicos que serviam de base para a vara eram mais profundo, modelei com uma faca amolada a ponta de cada vara em forma também cônica até se encaixassem perfeitamente, cortei cinqüenta metros de corda quase da grossura de um lápis e com um nó "pé de porco" enrolei a ponta do cordel e dei dois nós para não abrir, lacei a base externa do cônico do arpão e encaixei a vara e puxando a corda dei outros dois nós na ponta extrema e mais fina da arpoeira esticando a corda o que prendeu duramente o arpão na mesma, enrolei a corda e na outra extremidade amarrei uma bóia feita de madeira de buriti, estava pronta. Fiz o mesmo com a outra arpoeira e fui preparar as lanternas.
--Uma ferramenta indispensável na caçada ao jacaré é o machado, e este nós tínhamos, era um machado para abrir buracos nos moirões de cerca e por esta razão não tem o "gavião" grande, é quase reto e assim sendo não engancha no couro do pescoço quando desferimos um golpe mortal para desencaixar separando a espinha dorsal da cabeça. Cortei um pedaço do cabo para ficar mais maleável.
Começava a escurecer e os jacarés a ficarem mais atrevidos, pois estavam se aproximando de nosso acampamento, quando um deles chegou mais perto ao alcance de um lance de arpoada tive vontade de o fisgar, mas sabia que as conseqüências seriam graves, pois lutar com jacaré em terra seria bem mais perigoso, na água a vantagem era dos dois, resolvi aguardar a noite chegar, mas não sem antes sussurrar:
--Aguarde-me, breve teremos um encontro.
E tivemos mesmo.
--Vamos á luta Mariano, já esta tudo pronto ai dentro da canoa, e não vamos precisar ir longe, temos alguns deles bem grandes a menos de trinta metros.
--Quem vai arpoar primeiro? – perguntou.
--Eu vou, mato dois e você outros dois.
--Combinado.
Quatro jacarés grandes para uma noite era muito trabalho.
Entrei na canoa que balançava mais porque minhas pernas tremiam muito, não tinha jeito por mais que estivesse acostumado a aquela luta o nervosismo sempre estava presente no começo da caçada, depois que o sangue esquentava a coragem aparecia. Peguei a arpoeira, testei o balanço da mesma e vi que estava bem rígida, conferi a situação da corda de arpão, lanterna pendurada no pescoço, o rifle 22 em cima do banco com a bala no pente, o machado no fundo da canoa junto com um facão, não faltava mais nada. Mariano já havia se ajeitado na popa da "ubá" e eu empurrei lentamente a canoa para o meio do lago e de lanterna acesa na altura dos olhos buscava focalizar os jacarés, fiz um mapeamento de todos que se somaram onze, todos adultos e bem perto de nós estavam três nos olhando de frente o que me dificultava arpoá-lo e usando o sistema de indicação de rumo virei a ponta da vara para a esquerda e a abaixei um pouco o que valia dizer para virar a canoa e ir mais ligeiro, senti o piloteiro afundar o remo e a canoa avançou tentando contornar o animal, mas ele velhacadamente acompanhava a lanterna e nunca deixava o flanco à disposição, pois só poderia acertá-lo no pescoço lateralmente, mas não adiantava. Dei sinal para frear a canoa e fiquei a focá-lo diretamente nos olhos sabia que só haveria um meio que era espantá-lo, pois, ao tentar afundar rapidamente teria que virar para um lado e ai eu não poderia perder a oportunidade e assim o fiz, tomei um fôlego e bati com o pé na canoa, o animal se assustou e pinoteando virou-se para fugir e eu o acertei bem no lugar ideal que é atrás da cabeça no couro mole do pescoço. Foi um sopapo enorme que jogou água em nós, e a fera afundou e foi puxando a corda que eu lentamente soltava até que parou e a canoa continuou a avançar e eu recolhendo a corda até encontrar a vara da arpoeira e desfiz o nó da ponta livrando a vara a coloquei dentro da canoa e com a lanterna acesa na boca peguei o rifle calibre 22 manobrei colocando uma bala na agulha e comecei a puxar o jacaré que estava se segurando no fundo do lago, misturado à lama, fiz muita força, mas não conseguia desprendê-lo a ponto da canoa se abaixar tanto que quase entra água pela borda, eu tinha certeza que ele não agüentaria tanto tempo no fundo sem respirar e resolvi esperar um pouco. Minutos depois tornei a puxar a corda e o jacaré começou a subir para a tona era a hora do perigo fui puxando devagar e a corda vinha raspando a canoa e logo a cabeça do jacaré apareceu e eu continuava focando seus olhos com a lanterna segura ainda na boca e com uma mão controlava a corda e com a outra peguei a 22 e esperei a cabeça aparecer toda bem raspando a canoa foi quando quase me apavorei, pois a cabeça estava mais alta que a borda da canoa não esperei mais e desfechei um tiro certeiro à queima roupa bem na nuca, o animal se entregou e ai colocando a espingarda dentro da canoa peguei a machadinha e com um golpe certeiro desencaixei a espinha dorsal junto à cabeça, agora eu sabia que estava morto, mas eu esta bem nervoso, mas fui me acalmando e a seguir com a faca furei o couro na altura da nuca e passando um grosso arame de ferro e o arrastamos até a margem e o amarrei em um galho grosso de uma arvore, no outro dia cedo viríamos buscá-lo para tirar o couro, saímos atrás de outro jacaré. A fase mais difícil é quando o jacaré vem à tona e quando os dois se juntam canoa com animal não se pode esperar muito tempo é preciso agir rápido e acertar o tiro na nuca, é uma única chance, caso o contrario se debate e vira a canoa e ai as piranhas estão esperando as centenas. O tempo todo estes pequenos e vorazes peixes acompanham a canoa mordendo no fundo e no remo, onde eles encostam a boca (beiço) o dente ataca ela morde por contato seja o que for aquele barulhinho das mordidas não deixam a gente esquecer que elas estão bem ali juntinho.
Nesta noite matamos dois grandes jacarés. Era muito atrevimento lutarmos contra tamanhas feras não sei aonde achávamos tanta coragem, pois se caíssemos na água seriamos devorados pelas piranhas ou atacados por outros jacarés que normalmente eram uma vez e meio maior do que a canoa em tamanho, e éramos apenas dois contra dezenas deles. Agora teríamos também que nos cuidarmos da presença das onças, elas certamente viriam para banquetear os jacarés, por tal motivo sempre arrastávamos as carniças para longe do acampamento e amarrávamos os bois bem junto da fogueira.
Rafael havia feito um café bem cheiroso e nos serviu. Fomos dormir cansados e molhados.
No outro dia cedo fomos em busca dos dois jacarés e os trouxemos para o porto do acampamento, mas não conseguíamos arrastá-los para a terra e tivemos que usar a junta de bois para puxá-los para fora da água, tinham aproximadamente uns cinco metros de comprimento e deviam pesar uns duzentos quilos, a seguir tiramos os couros, os salgamos e rachamos o couro do rabo que não é aproveitavel em busca da gordura e tiramos quatro peças de cada um, que foram derretidas e enlatadas, arrastamos a carniça nos bois para longe do acampamento e fomos almoçar.
--Dankmar? Você conhece a historia desta Ilha, dizem que é a maior do mundo? – me perguntou Rafael
--Rafael, esta ilha esta localizada bem no centro do grande vale do rio Araguaia, a ilha do Bananal é considerada a maior ilha fluvial do mundo perfazendo uma área 1.957.312 hectares, divididos entre o Parque Nacional do Araguaia com 562.312 hectares e o parque indígena com 1.395,000 hectares.
--E a quem ela pertence? E porque a chamam de Ilha do Bananal?
--Juridicamente a Ilha esta afeta ao Estado de Goiás e parte ao Estado de Tocantins, sendo que sua extensão territorial atinge os municípios de Cristalândia, Formoso do Araguaia e Pium, Sua administração interna esta a afeta a FUNAI, pertence a Micro Região 332 estando encravada na bacia do grande Vale do Rio Araguaia na região leste Mato-grossense. Limita-se ao leste com o Estado de Goiás e Tocantins e ao oeste com o Estado de Mato Grosso.
O nome de Ilha do Bananal se origina de um grande bananal nativo que fica situado entre o ribeirão Imoty e o rio Jaburu, cuja área atinge a cinco alqueires goianos de plantação, hoje já bem reduzidos em decorrência da extratividade desordenada do produto. Atribui-se primeiramente aos negros fugitivos dos kilombos a plantação do bananal, é de se notar que até bem pouco tempo estes remanescentes dos africanos se faziam presentes naquela região sendo motivo de incansáveis buscas por parte da Fundação Nacional dos Índios – FUNAI, eram conhecidos como os "canoeiros", pelas suas habilidades no manejo de canoas "ubás", eram negros, pequenos, de barbicha rala e cabelo enrolado. Usavam pontas de facas e de ossos afiados em suas flexas, tendo certa feita ferido nas costa um mariscador (pescador) de nome Avelino quando subia o rio pelo braço pequeno o Javaé no piloto de um barco a motor. Ainda se comenta que existem alguns destes negros dispersos na ilha ou já integrados a outros ribeirinhos junto ao rio Formoso.
--Tomara que já não existam mais estes "canoeiros" terminou Rafael.
--Amanha conversamos mais sobre esta Ilha, vamos ao trabalho ainda temos que terminar de salgar estes couros. – encerrei.
Quase todas as noites já eram altas horas quando escutávamos os dois cachorros se alertarem e os fazíamos calar, não era boa coisa ir atrás de onça naquela hora da noite, deixaríamos isto para o dia.
Quando começava a tirar o couro sempre encontrava uma dezena de piranhas mortas dentro do corpo do jacaré elas haviam entrado pelo corte no pescoço comendo a carne e depois não podiam voltar. Salgamos a pele e derretemos a gordura que fica entremeada no rabo escondida dentro da carne e renderam quarenta litros de óleo que guardamos em lata.
Rafael tinha umas centenas de berrugas nas duas pernas o que lhe dava muito trabalho, pois constantemente sangravam, as berrugas secam a pele e, as vendo assim, resolvi dar um palpite para o nosso ajudante:
--Rafael passe gordura de jacaré nas berrugas se ele é usado para amaciar couro vai te ajudar.
--Vou experimentar– e dizendo isto rebocou as pernas com óleo do jacaré.
Quinze dias depois não tinha mais nenhuma berruga o que nos alegrou. Estava completamente curado.
Durante estes quinze dias matamos mais trinta e dois jacarés, mas nosso abastecimento estava no fim e decidimos que eu iria a Mato Verde buscar suprimentos, açúcar, café, farinha e toicinho.
Passaria pela fazenda do Oleriano e pegaria uma mula do Mariano que estava lá com sela e tudo e assim o fiz, neste dia fui dormir na casa do fazendeiro, no outro dia cedo parti para Mato Verde, cheguei ainda cedo da tarde, deixei a mula com o vaqueiro do Coronel Lucio, meu amigo João Vaqueiro, peguei uma canoa dele e atravessei o rio, fui até a minha casa ver a minha família.
Minha esposa não estava em casa, havia saído para visitar uns amigos, mas me acomodei e como já tinha banhado no rio eu mudei de roupa e deitei numa rede de labirinto destas que se pode dormir de atravessado, acordei pela chamado da patroa.
--Olha quem esta aqui? Perguntou ao menino que trazia no colo, Aleixinho já tinha um ano de vida.
--Oi...Vocês estão bem?
--Graças a Deus estamos bem, mas foi bom você chegar para ajeitar as coisas.
--Devo voltar para a Ilha em dois dias, mas até lá temos muito tempo para conversar.
Os dois maravilhosos dias se passarão e agora eu teria que iniciar a minha volta, comprara os suprimentos e os embalara em dois embornais para carregar na burra comecei a atravessar o rio naquela manhã de sol e vento de verão...
Á volta ao Lago do Mamão...
Atravessei o rio e aportei a canoa no lugar de costume e a amarrei em uma raiz, subi
barranco e fui até a pequena casa do João Vaqueiro.
--O de casa? Chamei.
--O de fora... Vamos entrando.
--Cadê a burra? João – perguntei
--Esta peada, mas cuidado com ela é muito velhaca para ficar no pasto tive que peia-la os três pés, toma café enquanto vou buscá-la.
--Obrigado.
Quando o vaqueiro chegou com o animal fui logo arriando e joguei os sacos com o suprimento na garupa, amarrei na cela, me despedi e montei, vi que era um animal perigoso, mas deduzi que logo o cansaço da caminhada abateria o seu animo, pois deveria ir direto ao lago do Mamão sem passar pela fazenda do Oleriano, mas a tarde chegou e eu ainda estava cerca de meio dia longe, o desvio não encurtara caminho e sim o tornara mais difícil andar entre o alto capinzal, teria que dormir na orla de um capão de mata que avistava ao longe.
Já escurecia quando cheguei na beira da mata, escolhi um lugar para atar minha rede, desarreie-la, pendurei o arreio e os sacos com os suprimentos, peie o animal de três pés e em cruz, e a deixei sair para pastar, mas o capim estava muito alto e logo ele sumia de vista, fui umas quatro vezes atrás dela e já a encontrei longe e com dificuldade, pois tinha que usar a lanterna para encontrá-la, resolvi deixá-la dormir amarrada pelo cabresto.
Não dormi direito sempre prevenido escutando se a burra espirra-se seria sinal de algum perigo, deixe o meu revolver calibre 38 bem a mão e cochilava de vez em quando, logo o dia amanhecera e resolvi seguir viagem. Joguei o arreio no lombo da burra, amarrei os sacos de suprimentos na garupa e ia montar seguro no cabresto e na rédea quando lembrei das peias que estavam no chão, estendi a mão para apanhá-las, mas não alcançava, puxava o animal, mas ele endurecia e não vinha para frente, por uma fração de segundo coloquei o cabresto no chão lentamente e apanhei as peias, neste instante de milésimos de segundos a burra pulou para trás e disparou capim adentro correndo com o arreio e a carga de suprimentos e logo sumiu de vista, disparei atrás dela e zangado eu ia atirar nela, mas não a vi mais só fui achando pelo caminho os suprimentos caídos, mas ela se foi com arreio e tudo mais. Tive vontade de chorar e gritar, mas o jeito foi jogar os pesados sacos à costa e seguir viagem. Enfrentei o sol quente, o capim alto, os mosquitos e os mutucas, mas eu tinha que ir em frente. Cheguei no começo da tarde, cansado e estropiado com os pés em brasa.
Quando me enxergou Rafael se espantou e gritou para Mariano que cochilava na rede:
--Mariano o Dankmar chegou.
--Cheguei mesmo? Brinquei ironicamente.
--Uai...O que foi que aconteceu? Você veio a pé?
--Não a maldita burra me pregou uma peça – contei toda história para ele.
--Está tudo bem só vamos ter prejuízo do arreio, a burra esta acostumada na fazenda do Oleriano que é aqui perto e ela vai ficar lá depois nos a pegaremos, como está todo mundo lá em casa? Perguntou.
Batemos um papo prolongado sempre respondendo as perguntas do Rafael isto até a hora da caçada.
--Dankmar, você conhece bem esta ilha que tipo de clima é este? E que tipo de terrenos estamos pisando em cima? É todo alagadiço?
--Não Rafael-respondi - A ilha esta classificada a dois tipos de clima, o tropical Monçóico e o tropical de Savanas com predominância do último e sua temperatura atinge a 38ºC no Maximo e a 18ºC no mínimo.
O tipo de vegetação predominante é o campo limpo e o campo com murundu, sendo o primeiro formado por graminoides e o segundo com comunidades hidrófilas expressada por um mosaico de campos e várzeas inundadas e salpicadas de montículos (cupins e manchões) onde se desenvolvem arbustos e arvores tais como Murici, Lixeira, Oiti e outras, nesta unidade foram englobados indiscriminadamente vegetação campestre arbóreas de várzeas alagadas, periodicamente ou não representa cerca de 43% da região. As matas alagadiças ou florestas pluviais Perenifólias Hidrófilas correspondem a 16% da região. Seguidamente a primeira predomina o Cerrado "Sensu strictu" ou Cerrado denso definido com extrato dominante arbóreo de 4-8m, com cobertura de copa em torno de 40%, extrato arbustivo de 1-2m, e extrato herbáceo composto principalmente de gramíneas. O Cerrado é um tipo ralo e degradado de menor densidade e altura correspondem a 30% da região. Finalmente as Matas Altas e o babaçual (Orbignya-ssp) ás margens do ribeirão Jaburu (Mata de côco) representam 11% da região se misturam na identificação das Florestas Estacionais Sermidecidua Mista, neste caso, o extrato dominante é composto por arvores cujas copas esgalhadas são nitidamente mais espaçadas, dominando o extrato arbustivo - arbóreo denso e baixo recoberto parcialmente de cipós e tiririca.
Em grande parte da Ilha se encontram areias vermelhas, amarelas quartzares e areias marinhas, as manchas de solo hidromifricos se fundem ao sistema argiloso sedimentar. As areias marinhas conhecidas como areia manteiga predominam em meio aos barros pretos argilosos e aos tremendais que procuram acomodação secular.
A Ilha é composta por dois braços do rio Araguaia o menor tem o nome de Javaé e o segundo o próprio Araguaia, sua extensão atinge a 600 klms. De comprimento por uma largura média de 80 klms. O seu interior é composto por uma bacia em que predomina o Riozinho ou Jaburu, seus afluentes principais são o ribeirão 23, 24, Imoty, e o ribeirão Itabelai, Suas dezenas de lagos e lagoas que se destacam com seus esgotos são: a Lagoa da Mercê, o Lago dos Cavalos, o Lago do Mamão, a Lagoa da Pataca, o Lago de Canuanã, a Lagoa das Três Bocas, o Lago do Pé de Coco junto ao Lago do 47. A Ilha se apresenta como uma planice verde tal uma mesa de sinuca e apenas dois morros se destacavam o do Imoty e o de Santa Izabel do Morro que foi totalmente derrubado no aproveitamento de brita para construção do campo de pouso em Santa Izabel
A Ilha do bananal não apresenta tradições locais ou importadas, nem em costumes sociais, nem em cultos religiosos, nada é antigo ou sólido. Não se tem noticias de sítios arqueológicos ou mesmo de trabalhos ruprestes.– terminei.
--Já chega! Estou com a cabeça quente é muito difícil entender o que você esta falando – interrompeu Rafael.
--Deixa pra lá Rafael, depois te explico melhor.
Já estávamos com 20 dias no lago do Mamão e havíamos matado apenas 35 jacarés grandes o maior médiu 28 palmos do queixo até seis palmos de rabo (não se aproveitava o rabo todo só a parte mais macia), era muito grande.
Durante o dia fazíamos explorações para descobrimos novos lagos, encontramos um lago bem grande, longe do Riozinho em cerca de seis quilômetros, mas nossos compromissos nos obrigavam a voltar e assim o fizemos.
Cinco dias depois estávamos em casa na nossa bela cidade de Mato Verde, mas eu já tramava voltar ainda estávamos em junho e tínhamos quatro meses pela frente para mariscar jacarés.
Vendemos os nossos couros ao Telésforo Moreira que era o comprador que pagava melhor, dali ele levava para Belém do Pará e de lá não sei para aonde iam.
Descontei o preço do arreio, pois Mariano achou a burra limpa igual o dia em que nascera.
Foram dias de descanso e paz.
FIM DE JULHO DE 1955
Explorando os Lagos:
Lago da Três Bocas – Riozinho com rio Imoty e rio Jaburu.
Lago do Coqueiro Solitário – afastado das três Bocas
Lago dos 47 - afastado do Riozinho em três mil metros
Dankmar, Osvaldo Paulista, Rafael e Manoel Basílio...
Mariano não poderia voltar, assim, chamei o "Paulista" Osvaldo Guimarães para companheiro e o Rafael, como sempre para cozinheiro e braçal, só que esta viagem seria bem mais dura e difícil, pois teríamos que seguir até a margem do Riozinho com um ou dois animais de carga e lá arranjaríamos uma canoa para nossa caçada, já sabíamos que o Mundico Sabino nos emprestaria uma canoa, mas era pequena, mas esperávamos arranjar uma outra canoa maior com os índios Javaés que estavam perambulando pelo interior da ilha. Assim aconteceu.
Preparamos a nossa viagem cautelosamente para não faltar nada, inclusive um bom pedaço de lona plástica, pois setembro e outubro já eram meses de chuvas, marcamos o dia da saída, seria no mês de agosto de 1955, a única diferença é que eu iria passar o aniversário de minha esposa dia 27 de agosto no mato, mas a vida era assim e ela compreendia bem.
No dia 11 de agosto atravessamos o rio onde Mundico Sabino mandará um peão de sua fazenda com duas mulas de carga para nos levar até as margens do rio Jaburu. Nos fomos a pé. Neste dia posamos de novo na fazenda do Oleriano a margem do ribeirão 23, madrugamos, pois teríamos que atravessar o ribeirão 24 e a macega estava muito alta o que dificultaria o nosso avanço.
Chegamos no dia 12 antes do anoitecer ás margens do lendário rio, nos arranchamos, no porto uma canoa estava a nossa espera com dois remos dentro. Quatro cachorros nos acompanhavam, o menor se chamava "Batom" era o cachorro de vigiar a casa, ele não quis ficar, tive que levá-lo, o segundo chamava-se "Pretinho", era um pra nada, o terceiro se chamava "Javali", era bom caçador e acuador de onça, o quarto era uma cachorra mestiça metida mais a policial e se chamava "Veneza", muito obediente e valente. Estavam todos cansados e dormiam a solta pelo novo acampamento.
Neste dia apenas descansamos.
No dia seguinte, o peão voltou com os animais e nos fomos até a "cachoeirinha' ·aonde possivelmente, arranjaria -mos uma canoa maior com os índios Javaés".
A cachoeirinha ficava apenas algumas horas no remo e logo escutamos o barulho das águas, quando fomos nos aproximando ouvimos também vozes de índios, eram apenas quatro deles, aproximei-me calmamente e encostei a canoa junto das outras.
--Taterianbo (Bom dia).
--Tateri – foi á resposta curta.
--Mombani caí? – (Como se chama?) perguntei ao índio mais velho.
--Raul, nome de tori – respondeu rindo – e continuou -Vocês vem de onde? (num belo e bonito português).
--Nos estamos aqui para mariscar jacaré.
--Hum, nos só mariscar peixe e ariranha.
--Eu queria era alugar uma canoa sua destas maiores, a nossa, aquela ali, é muito pequena e perigosa.
--Ta bom, empresta canoa àquela grande - mostrou a ubá – quando ocê volta deixa canoa na casa de Oleriano.
--Quanto vai custar?
--Nada meu amigo, ocê Dequimá?
--Sim, eu sou Dankmar.
--Todo Javaé conhece ocê e Carajás também, fala muito bom do amigo.
--Vou precisar de pelo menos um remo.
--Esta bem, eu arranjo remo, mas ocê demora mais e um dia vão lá no "Canoanon" visita nossa aldeia, eu arranja mué bonita para ocê.
--Muito obrigado Raul, mas eu tenho que voltar.
--Ficamos mais umas duas horas por ali, comemos peixe assado e voltamos nas duas canoas, eu vinha na grande e vi como era pesada, mas não tínhamos alternativas, o fundo da canoa era muito grosso, mas não tinha nenhuma rachadura.
--Pousamos pela segunda noite no mesmo lugar.
--No dia seguinte, ajeitamos as coisas dentro das canoas e seguimos viagem rio acima rumo as três bocas, na canoa grande iam o Rafael no piloto e eu ia à frente usando a zinga ou o remo levando dois cachorros e parte maior da tralha, na canoa pequena ia o Paulista, mais dois cachorros e alguma tralha, sentado no piloto remava e alternava com a zinga nos lugares mais rasos, íamos ganhando espaço.
Já havíamos passado da cachoeirinha e não víamos os índios, deviam estar fora caçando, enfrentamos um longo trecho raso, tivemos que descer das canoas e empurrá-las, num certo momento senti qualquer coisa roçando o calcanhar de meu pé dentro da água rasa, eram umas dez piranhas vermelhas ou "chipitas" ainda pequenas que nadando quase de lado pela falta de água tentavam morder meu pé, me virei e com a vara da zinga as espantei com varias pancadas fortes em cima delas que fugiram, prossegui viagem arrastando a canoa por mais uns cem metros logo a água foi ficando mais funda e eu entrei dentro da canoa e fui para a proa impulsionar com a zinga. Havíamos andado quase uns trezentos metros quando eu vi uma cobra Sucuri emparelhada com a canoa nadando no mesmo sentido, a vara do arpão que esta sempre encastoada e pronta estava bem à mão e a apanhando joguei contra a cobra, mas o arpão não entrava, tentei umas poucas vezes, mas não adiantava e teimosamente a cobra acompanhava a canoa naquela água transparente, algumas vezes ela punha a cabeça para fora da água e ameaçava atacar a canoa, ela estava enraivecida e eu comecei a me assustar foi ai que me veio à idéia, atirar nela com o rifle 22 e assim o fiz, agachei e apanhei o rifle o manobrei colocando a bala na agulha e esperei, quando ela subiu atirei na cabeça, fora um tiro mortal. Paramos a canoa, pulamos na água que devia ter não mais do que meio metro de fundura e a arrastamos para a praia. Ela tinha aproximadamente uns quatro a cinco metros, não era grande, mas estava gorda. Tentamos tirar o couro, mas não conseguíamos, mesmo morta ela se encolhia e não deixava racharmos o bucho com a faca. Finalmente depois de a estaquearmos na ponta do rabo e no pescoço com as duas varas enfiadas na areia consegui cortar o couro da barriga e para minha surpresa contamos exatamente cento e cinqüenta filhotes de um palmo de tamanho, vivos a se contorcerem na areia quente, antes que eu mandasse Paulista depois que os contou os jogou dentro da água do rio e eles sumiram, era esta a razão de sua agressão.
--Chegamos ás quatro horas da tarde na boca de lago solto e dali havia um esgoto que leva ao lago dos quarenta e sete, e nos arranchamos em uma bela praia.
--Estávamos enfadados, pois já era o terceiro dia de penúria. Usando o arco a flecha logo fisguei dois belíssimos Tucunarés, jantamos bem e dormimos cedo. Algo me fazia desconfiar, estava tudo muito quieto para o meu gosto, seria a presença dos cachorros?
--Acordamos com o cantar de dois Jacurutus, se fosse no Mato Grosso eu iria suspeitar da presença de índios Xavantes, o sol já havia saído, era por ai seis horas da manhã. Fizemos café, eu havia levado um vidro com 500 pílulas de adoçante dietético, e assim carregávamos menos coisas, apagamos o fogo e rumamos para as três bocas. Chegamos cinco horas depois.
--Ali se encontravam o Rio Imoty com o Riozinho e a terceira embocadura era o lago chamado Três Bocas, era uma beleza de lugar, o silêncio, somente o cantar dos pássaros, o riscar dos peixes e o barulho dos remos na água, lá fora, escondida entre as arvores, tenho certeza, alguma onça, pintada, preta, vermelha ou canguçu nos espreitavam intrigadas, talvez pensando "O que eles querem aqui? O que vieram fazer?".Encostamos a canoa em uma clareira limpa na mata bem a beira rio e com muita sombra.
--Aqui parece um bom lugar - comentei.
--Vamos arranchar aqui mesmo é melhor ficarmos mais afastados das bocas - advertiu Paulista.
--Poucas horas depois estávamos com um belíssimo acampamento montado. Esperávamos ter que passar ali pelo menos 30 dias. A tarde chegara com o barulho dos pássaros e o bater forte das asas dos patos selvagens que pousavam por todo os lados. Repetimos as operações iniciais como preparar as arpoeiras, lanternas, linhas armas, machado, facão etc.
--A noite caíra escura feito breu, de barulho somente as rabanadas de um ou outro jacaré ou peixe, e o grumexe dos cachorros que estavam meio escabreados com o ambiente hostil, de quando em vez um rosnava, mas não latia.
--Rafael te cuida fica perto da fogueira – recomendei
--O Paulista era um grande piloto e grande arpoador, mas eu teria que ir á frente, pois tinha mais pratica naquela luta entre homem e animal.
--Paulista, tudo pronto.
--Tudo.
--Você pilota a canoa e eu arpôo.
--Como queira.
--Empurramos a canoa para dentro da água e fui para a proa e me coloquei em pé e com uma lanterna de dois elementos (Rayovac), segurei a arpoeira na altura dos ombros, dei sinal com um leve balançar do corpo que era um sinal para avançarmos e foquei a lanterna, quase me assombro mais parecia uma arvore de Natal de tantos reflexos que eu via, mas pela altura dos olhos da água e da distância entre os dois olhos percebi que tinha muito jacaré de segunda e terceira, isto queria dizer que os jacarés grandes seriam poucos uma vez que a miuçalha estava solta, teria que achar primeiro os grandes e assim que localizei um dei sinal com a arpoeira, porque o piloto não tem a menor noção do que esta acontecendo, e lá se fomos nos bem devagar, o remo entrava e saia da água sutilmente sem fazer um menor ruído fomos passando entre vários jacarés de segunda até que me aproximei do grandalhão, tomamos uma cautelosa chegada e ele nem se deu conta, mas quando o arpão se encravou no couro e carne do pescoço ai sim foi um Deus nos acuda, o primeirão deu uma rabanada que nos encharcou dos pés a cabeça e balançou a canoa, mas aquela embarcação era segura muito grande firme e pesada, mas mesmo assim minhas pernas ainda estavam tremendo, foi um barulho lago afora que mais parecia uma revolução e que todo mundo estava contra nos, o jacaré correra um pouco e entrou numa moita de mururé (planta que dá na superfície das águas) até se enganchar, eu corri a lanterna ao nosso redor e pude contar mais de vinte jacarés de todos os tamanhos bem perto nos olhando agressivamente e de rebate as piranhas estavam de plantão junto a nossa canoa. Deixe a coisa acalmar um pouco, foi quando o Paulista muito calmamente falou:
--Vamos encostar em um pé de Saram e vamos puxar este porcaria para fora e matá-lo logo e depois vamos continuar sem escolher vamos pegar os que estiverem na frente.
-- Certo.
--Eu fui soltando a corda da arpoeira e nos agarramos em Saram (arvore de beira de lago), puxamos o jacaré, mas não deu resultado e assim comecei a recolher a corda e lá se fomos nos para junto da moita de mururé, eu começava a me esquentar e já estava zangado, passei a mão no facão fui cortando as plantas junto da corda e puxando a canoa até entrar bem dentro, foi ai que eu senti o encastôo da corda (parte de amarrar que fica junto do arpão), e esfriei ao sentir o couro do animal logo nas pontas dos dedos. Mas eu não sabia para que lado estava à cabeça então tive que cutucar a fera com o facão para ela se mexer do lugar, num movimento tremendo que chegou a levantar a canoa o jacaré passou por debaixo dela e volto para o espelho do lago e nos fomos juntos, claro que eu havia dado corda.
--Agora estávamos em igualdade de condições, recolhendo a corda aguardava com o rifle ao lado quando a cabeça me apareceu segurei lentamente a lanterna na boca e com a mão esquerda mantinha a corda esticada e com a direita encostei o rifle na nuca e disparei. Nem me lembrava mais dos outros jacarés. Depois que desencaixei a espinha dorsal junto à cabeça o amarramos com arame num forte pe de Saram e eu pedi para voltarmos para o acampamento.
--Paulista, vamos voltar um pouco para o acampamento.
--Encostamos a canoa e nós saímos um pouco aliviados.
--Agora é a sua vez Paulista eu vou pilotar.
--É bom mesmo, esta canoa é muito pesada, mas eu vou arpoar o primeiro que aparecer.
--Tudo bem vai lá
--Neste resto de noite correu tudo bem, caçamos mais quatro jacarés médios.
--Fui dormir de madrugada, passei boa parte da noite pensando em minha família e nos riscos que corria, piranhas prontas para devorar ao menor deslize, onças na espreita pronta para atacar, sucuris, cobras venenosas, será que valia a pena correr aquele risco todo, logo no começo da vida?
--Nos não tínhamos uma junta de bois para puxar aqueles enormes animais para fora dagua para tirar o couro e assim o jeito era tirar o couro bem na beira dagua quase junto com as piranhas, depois tirávamos o rabo para tirar a gordura e arrastávamos o resto para mais longe possível do acampamento.
--Assim se passarão os dias, os couros iam se amontoando e a gente se acostumando ao perigo, mas o nosso estoque de alimentação estava no fim, trinta dias haviam se passado desde que saíra de casa, e tínhamos que mudar acampamento para o lago do "Coqueiro Só", mas só quando regressa se - Assim decidi.
--Paulista e Rafael, eu vou a Mato Verde buscar suprimentos, não saiam do acampamento e nem inventem de caçarem sozinhos, dentro de dez dias estarei de volta, vou descer na canoa pequena até o Oleriano de lá eu pego um animal e vou a Mato Verde, assim volto mais depressa e continuaremos a nossa caçada, vou levar todos os couros que puder e já deixo guardado com o velho, vou levar só o meu revolver a carabina 44 e a 22 ficam aqui no acampamento.
--Quando você vai? - perguntou Rafael
--Amanhã cedo, hoje eu vou explorar o outro lado rumo leste eu já vi ao longe uma mata fechada e pode ser um lago grande, vou lá verificar.
--Leve os cachorros contigo, tem muita onça rondando por aqui por causa das carniças dos jacarés, todas as noites elas rondam o acampamento, já ouvimos muito barulho delas e parece que estão se acostumando com a gente e isto pode ser perigoso – comentou sabiamente o Paulista.
--É, eu já reparei que elas estão pegando as carniças bem aqui perto e arrastando para dentro do capão, vou levar os cachorros e a minha carabina 22.
--Tome cuidado.
--Entrei na canoa grande, chamei os cachorros que logo estavam todos dentro, não deixei o Baton entrar, ele era muito pequeno e muito gordo alem de cabeludo, logo cansaria embora fosse muito cedo do dia, vagarosamente rumei para o outro lado quando escutei--
--O que aconteceu, eu escutei os cachorros acuando lá do outro lado e fui ver o que estava acontecendo e não é que eles haviam acuado uma Suçuarana e ela subiu num pé de murici baixinho e eu larguei fogo nela, já tirei o couro, e você onde estava--Matando esta aqui – respondi tirando a Canguçu de dentro da canoa - é... Eu vi a tua onça ela andava atrás de mim botando tocaia para me pegar, eu só dou um tiro e é bem na testa.
--É hoje parece que foi o dia das onças, e eu Dankmar, só atiro dentro do olho que é para não estragar o couro.
--Já faz tempo que elas vem perturbando a gente
--E o lago, tem jacaré?
--É pequeno o espelho e é muito sujo, pode ser bom, mas é difícil e perigoso, não tem lugar firme para encostar a canoa, só muito lama.
--Deixa para lá já temos muito lugar para mariscar, vou tirar o couro desta canguçu e esticar.
--Dei uma boa merendada e fui descansar um pouco. Dormi até a boca da noite. Nesta noite eu não trabalhei, pois teria que viajar cedo no outro dia.
--Acordei com o barulho da passarada, a noite foi calma, não houve aquela apreensão com o barulho e briga das onças disputando as carniças acredito que elas sentiram os cheiros das duas onças mortas. Tomei um cafezinho, tornei a recomendar que não fossem caçar, especialmente sozinhos e tudo mais necessário.
--Quero que me traga um remédio para dor de cabeça.– pediu Rafael.
--Para mim eu quero uma garrafa de pinga, uma lata de leite moça e dois pacotes de fumo. – pediu Paulista
--Já estão na lista, você quer fazer "Um leite de onça", Paulista?
--Adivinhou.
--Pode ir tranqüilo, ninguém vai mexer com nada até você chegar.
Arrumei os couros e quando surgiu o primeiro clarão do dia acordei o pessoal e embarcamos quase todos os couros, tomei um café e acenei partindo. Rio abaixo era bem mais rápida a viagem, mas mesmo assim eu ia bastante pesado e teria que descarregar a canoa para poder passar a cachoeirinha, cheguei no Oleriano já quase escuro da noite, dormi entre aquela boa família, contamos casos e ao amanhecer do dia já estava com o animal arreado e pronto para partir, não sem antes agasalhar a courama no paiol.Pouco depois das quatro horas da tarde eu já estava atravessando o Araguaia e pensando como estariam todos, mas a patroa e o menino estavam bem. .Fiquei cinco dias visitando os amigos, e dando uma força para minha sogra Joaninha, pois meu sogro viajava muito e assim as mulheres sempre ficavam sozinhas, comecei a me preocupar com meu estilo de vida, seria a ultima caçada prolongada que eu faria, e foi mesmo.Quando inteirava os doze dias eu estava chegando de volta no acampamento com um suprimento para mais trinta dias, fui logo notando algo muito estranho, Paulista estava muito calado e o Rafael também, mas logo descobri o motivo, um couro de onça preta estava esticado de novo bem no fundo do acampamento fui até perto para examiná-las e contei seis buracos de bala, logo gritei:
--Isto aqui é um couro de onça ou uma peneira.
--Calma Dankmar eu vou te contar tudo.
--Pois conte logo – sentei-me junto ao fogo e peguei uma caneca para tomar café esperando a explicação do Paulista.
--Há três dias atrás esta onça amanheceu o dia esturrando em volta do acampamento e os cachorros a pressentiram e correram para o mato a acuaram ai não tive jeito tive que ir lá matá-la senão ela mata os cachorros.
--E foi preciso dar tanto tiro assim, vamos lá rapaz conte esta historia direito, venha cá Rafael me conte você?
--Patrão foi quase assim só que foi o Paulista que resolveu ir caçar e ele saiu sozinho, não levou nenhum cachorro, não sei por que carga dágua ele resolveu subir numa arvore e com a cabaça começou a esturrar chamando onça e não é que veio uma onça preta e parou bem embaixo do pau que ele estava, ai não teve jeito ou ele tirava ou a onça subia lá e o pegava, ele estava muito baixo, ai atirou e o tiro pegou bem a onça que correu, ele atirou de novo, não sei se pegou, com o barulho dos tiros os cachorros correram e foram para lá e ai o pau quebrou a onça ferida corria traz dos cachorros os cachorros corriam atrás da onça, ai não teve jeito o Paulista desceu da arvore e foi até onde estava a briga, era melhor enfrentar a onça do que enfrentar o senhor quando voltasse, foi chegando perto e deu outros dois tiros na onça que correu para cima dele ai ele correu, virou um corisco, mas se enganchou em um cipó e a carabina caiu da mão dele e se agarrou no cipoal e subiu bem para o alto, e ai os cachorros fecharam em cima da onça bem embaixo do Paulista, que me gritou, mas eu não escutei, era muito barulho junto, só sei que a onça tornou a correr e os cachorros depois de um tempo voltaram e ai o Paulista teve coragem desceu do cipoal e foi procurar a carabina que demorou a encontrar, pois é caiu longe, foi muita coragem ele descer da arvore só de facão na mão ai ele veio aqui pro rancho e depois de umas quatro horas resolvemos os dois voltar lá para ver o que aconteceu, mas logo os cachorros a encontraram ela esta morta ai nos a amarramos numa vara e a trouxemos para cá, o resto é aquilo ali – terminou mostrando o couro.
--Viu no que dá não escutar meus conselhos?
--É, passei um bocado apertado, mas a bicha morreu.
--Paulista, com uma carabina 44 tem que atirar seguro, é preciso ter muita calma.
No outro dia cedo ao atravesr um dos braços do rio para uma pequen ilha o cachorrinho batom entrou na água e vinha nadando atrás da canoa que se encostava ao barranco do outro lado do rio, fiquei de pé e pude ver centenas de piranhas todas no espelho da água quietinhas com o rabo para baixo e a cabeça para cima, como se tivessem querendo tomar sol da manhã e o cachorrinho nadando entre elas que se abriam a sua passagem, nunca mais verei algo assim novamente, a natureza é realmente sábia, até as piranhas tem suas horas de paz. O Baton saiu ileso do outro lado eu quase agradeci as piranhas. Dali segui rumo ao rio Javaé, com o sol nascente em meu rosto. Não havia andado mil metros quando os cachorros que sempre andam na frente encontraram um veado Cervo e correram atrás dele até sumir o latido, não adiantou eu gritar para eles largarem, fiquei sozinho por um bom pedaço, mas quando eu estava atravessando um capinzal alto, seguindo por uma trilha batida deixada por gado ou anta, escutei pisando bem atrás de mim, pensei "os cachorros estão chegando" e continuei a caminhar, mas logo desconfiei, pois os cachorros quando chegam vão logo atropelando e passando a frente e estes não queriam passar, desconfiado me virei com o rifle pronto e dei de cara com uma enorme onça Suçuarana (Vermelha) a menos de dez metros atrás de mim me seguindo no trilheiro, quando a fitei nos olhos e ela firmou a vista em mim levantei o rifle para atirar e em menos de dois segundos ela deu um pulo para o lado direito e sumiu dentro do capinzal, não cheguei a atirar e nem fui atrás. Esperei mais um pouco calado e atento, ouvi-os acuando alguma coisa, mas muito longe quase no rumo do acampamento, mas nem os cachorros e nem mais a onça davam sinal de vida, fui em frente rumo ao capão que se aproximava, logo que entrei num varjão de capim baixo e limpo foi quando ouvi um tiro longe, pouco depois os cachorros chegaram Tomei uma decisão, queimar o capim para ficar mais fácil de andar e assim o fiz, fui para junto da mata do lago e aguardei o fogo avançar rumo oeste para aonde o vento de verão o empurrava, quando fui chegando no capão rodeando uma moita topei de cara com uma onça que estava sentada e se levantando de um pulo e correu para dentro da mata quando dois cachorros chegaram e correram atrás dela, entraram no capão e sumiram latindo ao longe, resolvi contornar o capão pelo outro lado, mas quando ia passando junto de uma grande moita de tucum, o cachorro "Pretinho" acuava violentamente alguma coisa escondida na moita, me abaixei lentamente e vi uma onça Canguçu deita sobre as mãos abanando o pedaço de rabo (era Toco) e olhando fixamente para mim a menos de três metros, se enfrentar a morte for assim eu estou preparado, pois, não senti o menor receio e nem tremor calmamente sem deixar de fixar os olhos dela levantei o rifle e mirei bem na testa e apertei o gatilho, morreu sem se mexer do lugar, deixou a cabeça cair entre as mãos, não senti nem prazer e nem remorso, eu estava frio e parecia que não tinha feito nada de mais, quando vi que estava morta a arrastei para fora da moita de espinhos. Pensei em dar mais um tiro, mas não havia necessidade, descansei um pouco e joguei a bicha nas costa e voltei ao acampamento, quase não agüento o peso. Quando cheguei no rancho o Paulista foi falando:
--Achou esta oncinha?
--Matei esta canguçu, mas uma sussuarana andou me rebeirando, mas não teve coragem.
--Ainda bem que teve um final feliz, e os jacarés? Ainda há algum por lá?
--Só, jacaré pequeno e os jacaré-tinga começaram a aparecer.
--Não é bom sinal, vamos mudar para o lago do Pé de Coco Só e de lá vamos para o lago do quarenta e sete (Quando estávamos explorando os lagos da ilha do Bananal contamos 47 jacarés grandes naquele bonito e comprido lago).
--Já estamos em fim de setembro, bem perto de outubro, logo teremos muita chuva ai as coisas vão ficar difíceis para nos -vaticinou o Paulista.
--Rafael ajude a arrumar as tralhas começaremos a nos mudar amanhã cedo.
--Vamos caçar jacarés hoje?
No outro dia fizemos um jirau alto dentro do mato e escondemos os couros de jacarés e de onça e juntamos o resto da tralha embarcamos na canoa e começamos a parte mais difícil da odisséia, arrastar uma canoa grande pelo campo por mais de dois mil metros, levamos quase seis horas para colocar a canoa no outro lago, mesmo vazia era bastante pesada, fizemos um cabresto de corda e amarramos uma vara forte de atravessado no bico de proa e dois homens, um de cada lado, a arrastavam um pedaço, depois voltávamos atrás das tralhas e assim por diante ate chegarmos no novo lago, fizemos um acampamento provisório. Passamos oito dias caçando jacarés e só matamos onze, levamos os couros para o jirau da mata e começamos a nos mudar para a o nosso ultimo lago que pusemos o nome de Quarenta e Sete, e jamais o esqueceremos, foram os trinta dias mais difíceis da minha vida. Arrastamos penosamente a canoa por mais de três mil metros meio voltando, agora estávamos aproximadamente a dois mil metros da margem do Riozinho.
"Lago dos 47". Ilha do Bananal...
Ali morava o perigo, o sofrimento,
Ali morava o perigo, o sofrimento,
a dor e a solidão...
Eu tive um mau pressentimento...
Era o dia oito de outubro, já estávamos com 56 dias de caçadas e nosso resultado eram 19 couros de jacarés de primeira 01 couro de onça preta, 01 e 01 couro de onça canguçu, e um de onça pintada, também, passamos a maior parte do tempo em explorações e o pior era que as chuvas estavam para chegar, assim que chegamos no lago, alias, no único lugar limpo em que poderia encostar uma canoa e montar um bom acampamento, fomos recebidos pelos esturros de um jacaré muito grande que fez a terra tremer embaixo de nossos pés.
--São as boas vindas comentei.
--Aqui não vão ser mole não – concordou Rafael.
--Vamos ver. – monologou o Osvaldo Paulista
Passamos o resto do dia arrumando o acampamento e eu aproveitei para tocar fogo no capim entre o lago e o rio, pois estava muito alto e seria muito perigoso, e embora já tivesse dado umas duas chuvas ralas o fogo queimou até raspar o chão mostrando uma visão bem diferente. Na parte da tarde fui dar uma volta de reconhecimento pelo lago, era muito comprido e fazia uma curva em sua ponta norte onde o varjão praticamente encostava-se ao e uma montoeira de paus altos e era ali o ninho de milhares de pássaros, fiquei horas a observá-los, os Jaburus, as dezenas em seus vôos rasantes posavam sobre a parte pantanosa do lago, os colhereiros cor rosa e seu bico achatado mais parecendo uma colher alimentavam seus filhotes nos ninhos numa barulheira infernal, os mergulhões em seus vôos acrobáticos subiam e desciam dando piruetas e cambalhotas no ar e mergulhavam nas águas para aparecerem mais longe com um peixe no bico, as garças enfeitavam de um branco sem macula tal um modelo na passarela, as gaivotas escandalosas voavam riscando as águas com o bico e sempre pegavam um peixinho menor, tudo cheirava a peixe, e a mosca de ferrão abundava, era capaz de furar um cobertor para atingir a pele dentro da rede, acredito que dali veio à mosca de chifre que hoje atormenta o gado eu as vi aos milhares nos lugares em que os pássaros se povoavam, voltei entre admirado e pasmado, admirado ante tanta beleza da espécie viva, pasmado pelo comportamento social ao verem que também os pássaros viviam em comunidades para melhor se protegerem, era uma lição de vida, amor e dedicação. Voltei para o acampamento cumprimentando os crocodilos que vinham à tona para me estudar.
Ao escurecer fizemos uma reunião para traçarmos nossos trabalhos, obrigações e cuidados que teríamos que tomar.
--Vamos arrastar as carniças o mais longe que pudermos, depois que chegamos aqui já vi muitos rastos de onça, não vamos facilitar, especialmente você Rafael, a noite fique sempre acordado enquanto estivermos no lago, mantenha os cachorros juntos da fogueira e arma na mão, qualquer sinal de perigo de dois tiros para cima, lembre-se só dois tiros, entendido?
--Entendido.
--Paulista, hoje vamos matar apenas dois jacarés para tomarmos conhecimento do lago.
--Por mim está bem, estou um pouco cansado acho que podíamos descansar hoje e caçar amanhã.
--Pode ser, então vamos jantar e conversar um pouco e dormir.
--Uma coisa esta me incomodando – censurou o Paulista.
--O que é?
--Quando você se dispõe a falar com reservas de um certo lugar eu começo a ficar com medo.
--Afinal, o que lhe aflige?
--Você quando tem uma predição de coisa que podem ou vão acontecer, saias da frente, acontece mesmo e eu gostaria de saber o que esta te perturbando agora.
--Por enquanto nada, mas vamos tomar cuidados, quando a minha natureza fica perturbada algo esta por acontecer.
--É, eu me lembro de alguns casos teus, lembra também? - Perguntou?
--Sim, quando o meu sogro foi assassinado na Barreira de Pedra eu estava em casa deitado na cama ao lado de minha esposa Maria, quando uma vós que eu conheci como a dele me falou "Dankmar fale para a Joaninha que eu vendi o motor Penta novo para o Alfredo Alemão, na piedade para ele pagar para ela, e diga que estou bem". Meio atordoado acordei minha esposa Maria e lhe contei sobre a voz que eu ouvira.
--Deixa isto para amanhã cedo vamos lá na casa de minha mãe e você conta para ela.
Dormimos e ao clarear do dia deixei Maria ainda deitada e fui à casa de minha sogra e contei o fato para ela, e enquanto eu contava ouvimos o roncar de um barco a motor chegando, olhamos para o rio e vimos o barco do marido dela se aproximando para atracar e não sei porque eu falei a ela:
--Dona Joaninha aquela é o barco do seu Aleixo, mataram ele, vá ao porto, minha sogra saiu correndo e pouco depois voltava com alguns homens trazendo o corpo do marido morto dentro de uma rede. Muitos outros casos eu tenho previsto parece que tenho o don de ver as coisas antes de acontecer.
--E aqui o que esta vendo?
--Um pouco de sofrimento, mas no fim virá alguém nos ajudar, eu vi um homem chegar cantando, quando chegar a hora eu sei direitinhos pode ficar tranqüilo.
No outro dia demos uma outra volta pelo lago e achamos outros dois lugares com a margem limpa, mas era lama pura. Os jacarés não se assombravam, com a gente, alias, nem ligavam.
Chegada à noite nos saímos para a caçada, às pernas tremiam mais do que antes, as piranhas roçavam o fundo da canoa com os dentes e o remo ficava agredido de tanta mordida. Pegamos o que estava mais perto, não havia como escolher era uma verdadeira cidade quando se passava a lanterna pelos olhos dos animais. Os jacarés naquele lago eram mais violentos, de vez em quando um batia com o casco no fundo da canoa e se aproximavam perigosamente. Arrastamos para a margem e o amarramos com corda da própria arpoeira numa moita em uma pequena ilhota. Voltamos ao lago arpoamos um segundo jacaré e o matamos desencaixando a espinha junto à cabeça, e o puxamos para o porto e o amarramos com arame em um toco grosso, era o começo da nossa Via Crucies, pois neste exato instante o Paulista quase que profetizando falou:
--Dankmar devemos regressar ao acampamento, estou sentindo um vento frio e vejo relâmpagos ao longe é chuva na certa e precisamos agasalhar as nossas tralhas, afinal já estamos em outubro.
--É a voz da profecia, quando Paulista fala é melhor escutar, sempre acerta, vamos voltar – concordei.
Quando aportamos a canoa Rafael já vinha ao nosso encontro dizendo:
--Parece que vamos ter chuva, mas não se preocupem, já agasalhei quase tudo, fiz um jirau e coloquei a tralha de comida e o sal, só não fico jeito de armar as redes, a lona é pequena.
--É só quatro por oito metros, mas dá para a gente se esconder embaixo com os cachorros e as muriçocas que agora empestaram o lugar, vamos ver como estão as coisas e dar uma melhorada, amanhã tiraremos umas palhas para fazer uma cobertura e umas frutas do cerrado também – emendou Paulista.
Mas, Rafael continuava curioso e não parou de perguntou a nos dois:
--Dankmar e Paulista, já que você sabe quase tudo a respeito deste lugar me contem alguma coisa sobre a fauna e a flora.
--Eu só sei pescar – murmurejou Paulista.
--Esta bem eu conto, mas preste atenção:
--Começaremos pela abundancia dos Pequizeiros, do Murici pequeno e do Murici grande, dos Oitis, das Atas silvestres e das Atas de Quaresma que chegam a pesar 1 quilo e são muito saborosas, as Frutas do Conde, da Mangaba, o Pussa, o Pussa Frade, Seriguela, o Cajá, o Cajá Manga, a vagem cheirosa da Baunilha, o Oiti, a Graviola, a Cagaita, a Pitomba, a Carambola, o Tamarindo, a Pitanga, o Bacupari, Ingá e a Ingarãna e muitas outras.
Quanto aos bichos ou animais silvestres nos podemos começar que sem duvida alguma a Ilha do bananal era e ainda é a maior reserva natural da flora e da fauna brasileira.
Às margens de seus rios, ribeirões, lagos e lagoa centenas de espécies proliferam em seu habitat natural, não vamos usar termos científicos para catalogar as espécies que conhecemos, vamos usar simplesmente os seus nomes regionais e suas características.
Os patos selvagens são encontrados por toda a ilha aos milhares, ao anoitecer posam nas arvores altas em meio à mata e os capões, ao alvorecer do dia passam os bandos a voar rumo aos lagos, lagoas e rios comumente se encontram centenas deles banhando juntos, e mais ao meio dia voam para as praias das margens dos rios tanto Araguaia como outro qualquer e se misturam aos Marrecões. Suas pena pretas misturadas às pontas branca das asas que batem com vigor causando um forte barulho isto devido a seu peso, pois um pato macho adulto pode pesar ate 4 quilos e sua carne de cor amarronzada dão um toque das aves selvagens e são de um sabor privilegiado. Foram por muitos anos perseguidos e os mataram a centenas, mas chegada o dia do retorno eles se juntam em bandos e fazem seus vôos de volta em uma perfeita formação em V. As patas que estiverem chocando em seus ninhos nos ocos da arvores sempre põe dez ovos e tem que ficar quarenta dias no choco para tirar suas crias e depois os conduzi-los a pequenas lagoas para protegê-los dos predadores especialmente do gavião Caracará com os quais trava lutas furiosas na defesa de suas crias, mas os patinhos já sabidos mergulham para dentro da água seguidamente escapando de seu perseguidor, aprendem desde cedo a se defenderem.
Marrecões selvagens é uma espécie em extinção, grande muito bonito de corres amarronzada misturada ao amarelo chegam a pesa até 2 quilos cada ave, como os patos selvagens quando criados em casa com seus ovos em postura com uma galinha, se tornam dóceis e afáveis, mas chega um dia em que a saudade da espécie bate dentro, tanto ele como o pato ou o paturi que é o menor espécie, ficam de alcatéia e ao ouvirem o trinar ou aparecer um bando de seus familiares ele decola se juntam aos migrantes e volta a sua origem. O mais interessante é o Paturi que embora não sendo uma ave noturna gosta de voar por sobre as casas com seus tinidos como a chamá-los.
O Jaburu moleque ou o Jaburu cabeça seca, ou o Tuiuiu, o Mergulhão, a Garça, o Colhereiro, são aves ribeirinhas que se multiplicam as centenas no interior da Ilha do Bananal, podemos incluir o Martim Pescador e o Jacu Cigano;
Outras aves como pequenos pássaros como Xexéu e o João Congo que constroem seus ninhos em forma de cestos pendurados nas pontas das galhas nos mais altos lugares e que imitam todos os cantos de outros pássaros, o Bicudo famoso pelo seu mavioso cantar, o Curió, o Pintassilgo, o Canarinho amarelo ou Canarinho da Terra, o Tico, a Coleirinha, a Patativa, o Sabia, a Pomba Rola, a Pomba do Bando, o Tucano, Hambu, a Perdiz, a Jao, o Jaú, o Jacutinga, o Jacu Pemba, o gavião Caracará, o Gavião Pinhé, a Coruja, o Mutum, o Anu, o Passaro Preto, o Tisio, o João de Barro, a Ema, a Seriema, o Periquito Estrela, o Periquito verde, a Arara Amarela, a Arara Azul e a Arara Vermelha, o papagaio Cabeça amarela e azas dourada, a Curicaca, e muitas outras têm ali na ilha o seu habitat perfeito.
Os animais silvestres vivem abertamente nas planices, matas e cerrados, lagos e lagoas assim como a Anta, os porcos Queixadas, o porco Caititu, os veados Mateiros, os veados Campeiros, o Cervo, a onça Preta, a onça Vermelha ou a Suçuarana, a onça Pintada e a onça Canguçu da mão torta e o gato Jaguatirica disputam suas presas tentando assim manter o equilíbrio biológico, o Guará, o Guaxinim, o tatu Galinha, o tatu Peba, o tatu China, o tatu Bola e o tatu Canastra se cruzam em suas peregrinações, a Raposa silvestre, o Furão ou papa mel, o tamanduá Bandeira e o Tamanduá Mirim ou Meleta, o Ouriço, a Preguiça, a Paca, a Cotia, a Capivara, a Lontra, a Ariranha, o jacare-assú com seus seis metros de comprimento, os jacarés Tinga do Papo Amarelo, pequenos, mas agressivos, as vorazes Piranhas vermelhas as Piranhas pretas as Piranhas chipitas, o Tucunaré, o Pintado, o Surubim, o Piau bola, o Piau cabeça gorda, a Matrinchã, o Bagre, a Trairá, a Sardinha, a Jaraques, a Arraia chita, a Arraia amarela, o Pacu folha, o Pacu Branco, o Pacu Manteiga, o Cuiu Cuiu, o Cascudo, a Piaba, o Lambari, a Cachorra, a Bicuda, o peixe Voador, e uma infinidade de outras espécies, esta gostando da explicação ou quer mais? –perguntei.
--Não por já chega, ufa, é muita manteiga para o meu pão – exclamou Rafael.
--Vamos lá - mãos a obra e vamos arrumar nosso barraco, pois parece que pode vir muita chuva a qualquer momento.
Trabalhamos umas duas horas, mas improvisamos melhor, parecia que daria tudo certo, mas não foi o que aconteceu.
Já devia ser por ai oito horas da noite quando nos sentamos em redor da fogueira para comer um peixe assado com farinha de puba e tomarmos um café, nem bem tínhamos terminado quando um forte vento foi chegando e aumentando cada vez mais jogando cinza e brasa para todos os lados, as redes flutuavam no ar, galhos das arvores próximas começaram a estalar e cair e relâmpagos iluminavam a noite e as lamparinas foram para as "pupuias" ou simplesmente sumiram, somente as lanternas funcionavam, nos agarramos ás beiradas da lona que começava a rasgar, pois eram destas lonas de plásticos pretas que não agüentam nada, e este inferno durou uns vinte minutos até que caiu água para valer, os cachorros estavam escondidos embaixo do jirau, nossas mochilas e sacos de rede se molharam todos e veio água para dar com pau, choveu forte durante uns quarenta minutos, depois foi diminuindo, mas só veio parar ali pelas duas horas da manhã quando então deitamos nas redes molhadas, com muriçoca e tudo e dormimos.
Quando o dia amanheceu, pudemos ver o estrago da chuva, mas mãos a obra logo estávamos com o acampamento limpo e a roupa esticada para secar, e do jacaré que amarramos só achamos os pedaços de cordas que o amarravam e o chão todo revirado por outros jacarés ao puxá-lo para dentro da lagoa, mas ele se fora com um bom pedaço de corda amarrado no pescoço e tinha na ponta um pedaço de "buriti" que servia como "bóia", fomos procurá-lo e logo o achamos. Ele ainda estava lá com a corda e no fundo do lago, morto, cheio de piranhas por dentro que entraram pelo corte grande feito pelo machado atrás da cabeça, bem na nuca. O arrastamos até o porto e tiramos o couro, era muito grande mediu 24 palmos até passar um palmo do anu, com rabo e tudo daria 28 palmos.
Naquele dia tivemos vários problemas, Rafael foi tirar uma abelha e meteu o machado entre os dedos dos pés foi um corte profundo, mas tínhamos levado uma pequena farmácia de emergência e logo lhe fiz um curativo, e lhe dei uns comprimidos e enfaixei o pé.
Uma das lanternas não queria funcionar e tivemos sérios problemas para arrumá-la e ainda por cima o açúcar havia se molhado e estava secando, diminuiu muito, teríamos que apelar para as pílulas de sacarina que ainda tínhamos cerca de trezentas delas.
Nas cinco primeiras noites matamos aproximadamente dezesseis jacarés grandes, mas cada dia que passava ficava mais difícil, decidi que teria que ir à beira do Riozinho, onde havíamos deixado a canoa pequena bem amarrada, minha intenção era ver se encontrava alguns mariscadores que por ali passavam, mas o caminho era apenas um pequeno trilheiro, e com tanta chuva a minha botina já havia se estragado e eu ia descalço, mas quando eu pisava fora do trilheiro, os talos de capim entravam nas frieiras de meus dedos dos pés e furavam a carne, era um sofrimento terrível, tinha muita dificuldade para caminhar. Até que improvisei umas alpercatas que não se seguravam bem dentro dos pés. Quando cheguei na beira do rio, tirei a água da chuva que havia alagado a canoa e atravessei para o outro lado, num barranco alto e fui dar uma volta mais por curiosidade do que por necessidade e para minha surpresa encontrei uma velha roça de mandioca, ainda existiam muitos pés, certamente seriam dos índios Javaés, mas estava abandonada, arranquei um bocado de raízes e fui carregando para a canoa, os veados campeiros se levantavam bem junto de mim, caminhavam para meu encontro e quando sentiam meu cheiro pulavam de lado e corriam um pouco depois voltavam, ao que parece nunca tinham visto gente antes, poderia ter matado um bocado deles, mas de nada serviria, pois não os poderia carregar e assim me limitei às mandiocas.
Voltei para o nosso lado do rio e tirando a camisa à guisa de sacola carreguei um bocado de raízes, dividi-as em duas partes a primeira eu levaria para o acampamento as outras raízes colocaria dentro da canoa com bastante água para elas pubarem e assim eu poderia voltar e fazer um "grolado" ou uns "beijus", e colocando a carabina 22 no ombro e a sacola de mandioca nas costas me dispus a voltar para o acampamento no lago. Não havia ainda andado dois quilômetros naquela campina limpa quando voltei o rosto para o lado esquerdo e vi duas onças, a menos de cem metros, brincando em uma poça de água que restara da chuva em meio ao varjão, sutilmente joguei a camisa no chão e lançando mão da carabina 22, a manobrei, apontei, foi uma temeridade enfrentar aquelas feras em campo aberto, pararam de brincar e ficaram a me fitar foi quando, mirando uma das duas bem na cabeça atirei, o animal deu um urro e pulou por cima da outra e correu rumo a mata de beira do esgoto que ia do rio para o lago, não tornei a atirar, estavam longe, antes, decidi ir ao rancho buscar os cachorros para caçá-las e assim o fiz, acelerei o passo e logo chegava ao rancho gritei os cachorros fui na minha sacola peguei uma caixa de balas Winchester 22 e falei:
--Espere Paulista vou atrás de duas onças já baleei uma e vou ver se a acho.
--Cuidado duas onça é perigoso, te cuida.
Voltei correndo até o pequeno poço onde estavam banhando as duas e os cachorros que haviam chegado na frente pegaram o rasto e saíram a balroando, entrando na mata, fui atrás, a mata de beira do esgoto era muito fechada, mas o barulho dos cachorros não estava longe eles haviam acuado as feras, fui em frente e quando comecei a enxergar os cachorros vi que acuavam com a cara para cima olhando o cipoal do esgoto, cheguei perto e vi uma delas trepada numa galha e olhando para mim e para os cachorros, a cabeça da onça estava bem visível, mas meia de lado, atirar assim seria uma estupidez porque pegaria no osso a que chamam de "torpedo" um osso forte e grosso da temporal do cérebro e bala não entraria eu precisava pegá-la bem de frente, bem no meio da testa aonde o osso é fraco e fino, aguardei alguns segundo e logo me dispus a apelar, gritei para ela que olhou direto para mim atirei sem pestanejar, a onça despencou de cima do cipoal no meu rumo, eu estava quase embaixo dela, ela na queda me levou junto para o chão e os cachorros por cima de mim, gritei afastando-os e me afastei um metro da fera que deitada ainda tomava um fôlego profundo resfolegando, tirei a bala CBC, da 22 coloquei uma amarelinha e encostei o cano no buraco da primeira bala bem no meio da testa e atirei, ai foi um Deus nos acuda, a onça estrebuchando na ânsia da morte jogava o corpo de um lado para o outro, mas rapidamente se aquietou, vi que tinha morrido.
Eu estava quase sem fôlego, cansado mesmo, tentei mover a fera de lugar, mas não consegui, era um corpo muito pesado e mole, deixei do jeito que estava e ai me lembre que eram duas. Mas não vi a outra nem seus rastos, já era tardezinha, voltei para o acampamento.
No outro dia cedo, eu e o Paulista fomos até lá e o companheiro tirou o couro com a cabeça inteira. Voltamos ao rancho e fomos retirar a ossada da cabeça de dentro do couro para a colocarmos dentro do lago para os peixes fazerem a limpeza da ossada, mas, o que me chamou a atenção era que havia apenas um buraco de bala no couro e na ossada da cabeça e eu dera dois tiros, ficamos intrigados, mas não descobrimos o que realmente aconteceu. Amarrei a ossada da cabeça e joguei a beira da água.
Quando a retiramos ao entardecer já estava limpa e brilhando, os peixes fizeram um bonito trabalho e o chumbo da bala, uma só, balançava dentro da ossada do crânio, a retirei e a guardei como lembrança. E a outra onça? Será que foi realmente baleada?
Naquela noite foi diferente das outras todas e marcou o meu fim como caçador de jacarés.
No lago havia muitos jacarés, mas pequenos, havíamos matado quarenta e seis grandes, mas também as nossas pilhas estavam exaustas, chovia muito e estava na hora de irmos embora, mas antes teria que acertar minhas contas com um enorme jacare-assú que ainda restava, e ele nos desafiava, quando o imitávamos ele respondia esturrando tal um marruá que fazia a terra tremer, e dificilmente deixava nos aproximarmos dele. Como as pilhas estavam fracas, cortei uma lanterna Rayovac (de metal) e emendei no fundo de uma outra e com o foquitos (lâmpada) de três elementos coloquei cinco pilhas fracas o que resultou em uma ótima luz. Parti para o lago a procura do animal, de longe o avistei junto a uma moita de Mururé, fomos nos aproximando bem lentos e sem fazer barulho com a lanterna focada em seus dois olhos que nos encaravam frente a frente, tentamos dar a volta para o pegar de lado, mas ele sempre nos acompanhava, quando estávamos a menos de vinte metros, ele afundou e foi aparecer a mais de quinhentos metros em meio do lago, fomos para lá, mas a fera era muito arisca e tornou a afundar e apareceu junto à margem do lago, contornamos o meio e fomos para a margem em que ele estava acima de nos uns cem metros, de repente ele sumiu e eu em pé na proa da canoa o procurava com a lanterna quando o animal passou por baixo da canoa bem no meio dela e a levantou com as costas me jogando dentro da água com lanterna e o rifle na mão que foram parar no fundo do lago, mas ali a margem não era muito fundo tinha apenas uns dois metros e a lanterna acesa ficou iluminando no fundo bem junto da carabina e eu já estava dentro da canoa, o medo que eu tinha de piranhas não me deixaram quase molhar, em fração de segundos eu já estava dentro da canoa.
--E agora Paulista – falei desapontado com a situação.
--Agora é pegar a lanterna e a carabina.
--Com estas piranhas por ai?
--Ora, deixe que eu vou - e dizendo isto o Paulista escorregou pelo beiço da canoa, mergulhou e voltou com tudo nas mãos - cuidado, não deixe cair de novo, agora vamos acabar com este intrometido, jogue o arpão de qualquer distância aonde pegar nele que se dane. – terminou Osvaldo meio zangado.
--Vamos lá.
Foquei a lanterna desta vez com o cordão passado no pescoço, e o enxerguei a menos de quinze metros, tomei um fôlego e apontando a arpoeira bati com o pé na canoa, com o barulho o animal deu uma rabanada e virando de dorso começou a sumir no espelho do lago quando o arpão o encontrou bem por traz da mão esquerda, era um péssimo lugar para se puxar um animal daquele tamanho, mas ele não correu muito, logo senti a corda da arpoeira afrouxar eu fiquei desconfiado e gritei:
--Paulista ele vem para cima de nós.
--Então sente na canoa e prepare o machado - mal acabara de fechar a boca o animal tentava abocanhar o beiço da canoa e ato seguido, empurrava-a para a margem do lago, quando estávamos bem perto do barranco tornei a gritar.
--Vamos para terra, pule.
Pulamos bem na beira da terra, mas era só lama e entramos nela até quase a cintura, com dificuldade nos arrastamos para fora do lago deixando a canoa solta com o jacaré agarrado no beiço dela, mas lá dentro só ficou o remo. Pouco tempo depois à canoa estava bem perto de nos e o jacaré sumira, embarcamos novamente e voltamos para o porto do acampamento, por aquela noite já chegava. No outro dia cedo resolveríamos a parada, pois o arpão estava amarrado em uma bóia de buriti e não seria fácil o acharmos.
Conversamos muito noite e decidimos voltar para casa, mas não sem antes ver o que aconteceu.
No outro dia cedo voltamos ao lago, de dia era bem melhor e logo achamos a bóia, quando comecei a recolher a linha e vi que o jacaré ainda estava preso ao arpão e fui puxando devagar com o rifle preparado logo vi aparecer o lombo do incrível animal, vinha quieto e sem se mexer, mas eu não tinha jeito de atirar porque a cabeça estava mergulhada dentro da água e eu mal a enxergava, pedi para o piloto remar a frente e talvez assim a cabeça aparecesse e apareceu mesmo, mas bem junto do Paulista lá na proa do barco que quase correu para frente, passei a ele a 22 e ele audaciósamente encostou o cano na nuca e disparou, o tiro fôra mortal, passamos uma laçada no focinho, levantamos a cabeça fora da água e com o machado a desencaixamos da espinha, agora sim já não ofereceria mais perigo.
O arrastamos para o porto e com muito sacrifício o rolamos a ponto de poder tirar o couro o que o paulista e Rafael fizeram com muito trabalho. O jacaré estava magro de fazer dó, pois a sua papada em baixo da língua estava comida e uma crosta amarela a circundava, não sei se foi doença ou piranha, mas aquele jacaré não tinha mais como comer qualquer coisa, pois o que pusesse na boca vazaria para baixo, talvez isto fosse a razão de sua impetuosidade, e valentia medimos o couro, tinha seis metros e dez centímetros de comprimento, da ponta do queixo a ponta do rabo.
Iniciando a volta para casa.
As chuvas se acentuavam e o varjão amoleceu, depois de amarramos os quarenta e sete couros em fardos de cinco ou seis cada um, tentamos voltar à canoa para o Riozinho, mas Paulista havia estourado os ouvidos que purgavam e tinha febre, o Rafael tinha o pé inchado do corte e eu cheio de pensar nos dois mil metros por sobre um varjão mole e atolador que colava a canoa na lama. Inventamos de cortar uns roletes, mas só a conseguimos arrastar por uns cem metros, a canoa que antes deveria pesar uns oitenta quilos agora pesava duzentos, não iríamos conseguir.
Dormimos aquela noite debaixo de uma chuva fina e milhões de pernilongos, no outro dia bem cedo resolvi que iríamos todos até a beira do Riozinho ver se de alguma forma conseguiríamos aio de frieiras, estávamos fracos e desanimados. Seria muito difícil tirarmos a canoa arrastada em majuda. Levamos as nossas tralhas de dormidas e o rancho que restava.
Chegamos cedo e fomos desaguar a pequena canoa que havíamos deixado lá, enquanto tirava água da canoa ouvi o som de um remo batendo no beiço da canoa e alguém vinha cantando, vinha descendo o rio, todos ficamos atentos quando um homem sozinho em uma pequena ubá, apareceu na volta do rio e vinha bem alegre. Era um rapaz novo e desconhecido, chegou até o porto, amarrou a canoa junto a nossa e cumprimentou todo mundo:
--Olá, o que fazem aqui com estas caras de derrotados? E riu.
--Falou bem meu amigo – remendei e contei toda a nossa odisséia para ele.
--Ora, ora, vamos dar um jeito nisto agora mesmo, vamos voltar ao lago, ajudo vocês a trazerem tudo para cá, vamos – e seguiu na frente sempre cantando alguma modinha muito alegre.
A alegria do chegante nos contagiou, assim que chegamos ao acampamento ele foi logo desamarrando os fardos de pele, juntando algumas mais e quando completou quatro deles colocando um em cada costa disse:
--Vão na frente, eu vou atrás, quando cansarem jogue o fardo no chão que eu chego e os coloco de novo em seus ombros.
Fizemos três viagens e já tínhamos carregado tudo só faltava á canoa, voltamos pela última vez ao lago e enfrentamos a grande canoa:
--Vamos tirar três paus, amarramos um de atravessado no bico da canoa, e os outros dois enfiamos por dentro e por traz na popa embaixo desta corda que eu estou amarrando e eu e o Dankmar Pegamos na frente e levantamos a proa e vocês dois enfiem o ombro embaixo destes dois paus e empurrem para frente assim ele vai para cima e para frente, certo?
--Certo - respondemos e nos agarramos aos paus e como que por encanto a canoa ficou leve, desgrudou-se do chão e na primeira arrancada andamos mais de seiscentos metros, logo chegávamos à beira do Riozinho, estávamos cansados, mas satisfeitos e ainda era cedo do dia, mas resolvemos partir só no outro dia bem cedo.
--Meu amigo muito obrigado pela a sua ajuda e pela a sua animação, fique conosco por aqui hoje.
--Não eu tenho que ir em frente, adeus e boa sorte para vocês.
--Vá com Deus - agradeci quase chorando de alegria.
Logo cantando o nosso salvador sumia na curva do rio e nem sequer havíamos lhe perguntado quem era ou como se chamava, eu sei que fora um milagre, pois a nossa situação estava muito difícil, nunca mais o vi ou ouvi falar dele, mas também nunca me esqueci.
Voltamos são e salvos para nossas casas, mas eu nunca mais, desde então nos idos de 1958, me dediquei a caçar jacarés ou onças eu havia aprendido a minha lição.
FIM
Resumindo:
Esperamos que alguém acorde e venha socorrer a maior maravilha do mundo que ainda é a Ilha do Bananal onde a natureza luta para se manter intacta e na sua originalidade como quando a conheci e a deixei em 1955 tal qual Deus a criou
De 1970 para cá tenta amargamente sobreviver a seus depredadores que não lhes dão trégua.
"A MENINA MOÇA PEDE SOCORRO". FIM
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Todos os livros da serie "O Elo Perdido" são baseados em fatos reais, históricos e lendas os quais são frutos da natureza humana que se deleita em amalgamar e moldá-los intrinsecamente transformando-os em uma relíquia literária ao alcance de todos.
Revisado e atualisado em2ª Edição em 10/04/2018.-Autor: Wolfgang Dankmar Gunther. - Cel. 66 84 07 11 93 - Porto Alegre do Norte MT
O Autor, Wolfgang Dankmar Gunther, chegou a esta cidade, ainda distrito, na Bandeira Piratininga em 1948 e São Felix só tinha treze casas beira rio. e ai ficou, em 1953 casou-se em São Felix, foi o primeiro casamento civil registrado no Cartório, foi chefe na Ilha do Bananal na FBC por nove anos deixando centenas de amigos, foi transferido para a policia Federal em Brasília onde cursou na Academia (cursos intensivos) finalmente foi cambiado para Cuiabá mas não residiu ali sendo colocado a disposição do Forum de Justiça de Barra do Garças e ali permaneceu por mais nove anos até se aposentar. Passou a residir desde então em Porto Alegre do Norte, não deixando de visitar São Felix e Luciara. e se dedicou a por em papel as suas memorias e finalmente terminou os 13 livro todos lançados na Internet com a sigla "Gunther - A Historia de São Felix do Araguaia" e de outros municípios agradece a Assembleia Legislativa de Mato Grosso que lhe concedeu um Titulo de "Cidadão Mato-grossense" em maio de 2002 e seguidamente o titulo "Moção de Louvores" em 15 de dezembro de 2005 e a Câmara Municipal de Porto Alegre do Norte lhe concedeu o titulo de "Cidadão Porto Alegrense" em 29 de junho de 2005. mas, a melhor coisa que conseguiu neste quase 90 anos foi o presente da grata presença e carinho de seus amigos e de seus familiares sob a tutela de um Deus Único - e sempre usando o slogan: "Porque buscai a tantos quando há SÓ UM a ser encontrado?
autor :Wolfgang Dankmar Gunther.
Avenida Piraguassú 1415.
Porto Alegre do Norte MT.
CEP 78.655.000.
Celular; 014.66.984071193.




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